Os efeitos da seca e a águia-pescadora
A região de Sacramento MG assim como boa parte do Brasil, vive uma da mais contundentes secas dos últimos anos.
O período de estiagem que já dura há meses, ainda deve se prolongar por mais alguns dias, como indicam as últimas previsões meteorológicas.
Como consequência, grande parte de nossa área verde foi devastada pelo fogo, inclusive o Parque Nacional da Serra da Canastra, que neste ano teve mais de 50% de sua área atingida. Muitos animais morreram queimados ou atropelados durante a fuga, configurando uma tragédia silenciosa e vitimando aqueles que não tem voz para pedir socorro.
A seca influi até mesmo nas regiões bem servidas de água, como é o caso de uma área pantanosa localizada nas proximidades da cidade de Sacramento. O local reúne grande variedade e quantidade de espécies, por compor um bioma muito semelhante ao do famoso Pantanal Matogrossense.
Como fica perto de casa, costumo visitar sempre este local, onde invariavelmente econtramos espécies inusitadas e surpreendentes. Neste final de semana, acompanhado pelos amigos Saulo, Henrique e Bruno, decidimos empreender mais uma viagem ao local, animados pela idéia de que os bichos estariam bem ativos, devido a água estar baixa e as presas, como pequenos peixes e caramujos mais visíveis .
Porém qual não foi nossa surpresa ao chegar ao local por onde constumávamos navegar e constatar que estava coberto por aguapés! O longo período de estiagem, aliado ao baixo nível da água favoreceu o desenvolvimento da planta, que literalmente cobriu toda a área. O aguapé (Eichornia crassipes) é uma planta aquática que possui raízes longas, com folhas suspensas flutuando livremente sbre o espelho d´água, enroscado em obstáculos ou preso ao solo em locais de água rasa. A planta possui uma grande quantidade de pecíolos cheios de cavidades de ar - isso explica o enorme poder de flutuar. Ela possui a característica de absorver e acumular poluentes, "filtrando" a água. Entretanto, quando em abundância, impede a proliferação de algas responsáveis pela oxigenação da água, causando a morte dos organismos aquáticos.
Como a presença dos aguapés nos impediu de continuar a viagem, tivemos que criar outras oportunidades de avistamento, navegando ao longo do leito do rio, e logo pudemos ver e fotografar o belíssimo frango-d´água-azul (Porphyrio martinica) caminhando e coletando alimento por sobre as folhas suspensas dos aguapés. Diversas aves aquáticas, como a jaçanã (Jacana jacana) o carão (Aramus guarauna) e o socó-boi (Tigrisoma lineatum)apareceram e ofereceram boas oportunidades fotográficas.
Nas márgens, pudemos acompanhar um bando de tucanos (Ramphastos toco) se alimentando das sementes da embaúba (Cecropia hololeuca), mas o ponto alto ficou por conta dos rapinantes, quando presenciamos, mesmo de longe, uma águia-pescadora mergulhar do galho de uma árvore alta, capturar uma presa no espelho d´água e voar para o outro lado do rio. Pude observar a cena através dos binóculos e tesmemunhar toda a exuberância do animal com riqueza de detalhes.
A águia-pescadora (Pandion haliaetus) originária da América do Norte, é a única representante da família Pandionidade e migra para o Brasil no início e final do ano. Estudos recentes, ainda não comprovados, tem demonstrado que essa espécie pode estar se reproduzindo em nosso País. A espécie migra ainda jovem e leva de 2 a 3 anos para tornar-se adulta, quando regressa à América do Norte para se reproduzir. Após este período, retorna periodicamente à América do Sul.
Além da águia pescadora, ainda topamos com vários indivíduos de gavião-caramujeiro (Rostrhamus sociabilis) e um gavião-de-cabeça-cinza, (Leptodon cayanensis) espécie que costuma frequentar áreas próximas a cursos d´água e é considerada criticamente ameaçada de extinção em alguns estados do Brasil.
Infelizmente não consegui fotografar a água-pescadora, e ficamos apenas com um registro feito de longe pelo amigo Henrique Recidive. Fica a esperança para uma próxima vez e a certeza de ter realizado um passeio agradável e cheio de surpresas.










