Carranqueiro bom de prosa

A Serra da Canastra é um lugar surpreendente, sempre reveleando personagens que mais parecem terem sido inventados, tal a originalidade com que se apresentam. Em uma de minhas viagens, conheci seu Francisco Chagas, exímio artesão e contador de causos. O encontro, além de boas fotos, rendeu este artigo, que foi publicano na Revista Destaque IN:

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Nas entranhas da Serra da Canastra, a poucos quilômetros da nascente do Rio São Francisco, vive talvez o primeiro artesão a fabricar carrancas já nas cabeceiras do velho Chico. Ligado ao rio até pelo nome, seu Francisco Chagas dedica-se há mais de vinte anos a arte de esculpir em madeira as figuras mitológicas que se tornaram símbolo do Rio São Francisco. Figuras de aspecto monstruoso que são colocadas à frente das embarcações, as carrancas constituem uma das mais genuínas e enigmáticas manifestações da arte popular brasileira, cuja forma predominantemente zooantropomorfa se mostra de uma originalidade sem similar na história das navegações. Mesclando detalhes humanos com os de animais, elas apresentam em geral uma expressão de ferocidade. São feitas de um único tronco de madeira e retratam apenas a cabeça e o pescoço de alguma figura mitológica indeterminada.

De ornamento das barcas passou-se também a atribuir a essas curiosas figuras a função mágica de salvaguardar os barqueiros, viajantes e moradores contra as tempestades, perigos e maus presságios. Uma crença que, medidas as proporções, perdura até hoje.

Em busca de confirmar essa crença e descobrir como eram feitas as primeiras carrancas no percurso do rio São Francisco, empreendemos uma viagem através do Parque Nacional da Serra da Canastra, para encontrarmos o seu Chico Chagas, carranqueiro e contador de causos afamado nas redondezas. Conhecemos o seu Chico no último verão, quando pernoitamos em seu sítio localizado próximo a cidade de São Roque de Minas, pertinho da nascente do São Francisco. Natural de São Roque, ele se tornou conhecido quando começou a fazer carrancas, atividade que começou apenas como um passatempo, quando esteve proibido de sair de casa depois uma operação de hérnia, mas que depois se tornou um hábito que não parou mais.

As obras de arte agradavam os turistas, que faziam questão de levar para casa, como recordação “tem carranca, minha por todo esse mundo – ele conta, na Europa, no Japão, nos Estados Unidos...” e seu Chico segue mostrando várias peças que ele guarda em casa, inclusive a primeira carranca que fez, quando ainda estava “pegando o jeito” segundo ele mesmo conta.

Além de artesão, seu Chico Chagas é também exímio carpinteiro, compositor e tocador de sanfona. De uma religiosidade forte, ajuda a manter uma das mais populares tradições folclóricas e religiosas de Minas Gerais, como capitão de um terno de folia-de-reis, cuja melodia ele entoa na sanfona com uma dedicação impressionante.

A extrema habilidade para trabalhar a madeira é uma herança do avô carpinteiro, e conferiu facilidade as primeiras caretas esculpidas, usando como molde apenas suas lembranças.

Mas seu Chico gosta mesmo é de contar um bom causo, e nessa arte ele se supera, capricha nos detalhes, na entonação, e vai desfiando as histórias sem pressa, saboreando cada palavra, conferindo ao enredo uma convicção de quem realmente viveu e presenciou aquilo tudo muito intensamente. Ele explica didaticamente que a carranca é usada para afastar o mau. Principalmente o Caboclo D’água, que ele garante que já viu:

“Meu avô sempre ia pescar com meu tio-avô, nuns rios que tinham aí pra cima. Meu tio sempre falava pra tomar cuidado com o Caboclo d´água, uma mistura de homem e macaco que vira a canoa para comer as pessoas. Meu avô não acreditava em nada disso. Mas um dia ele estava pescando, a canoa começou a bambear. Quando ele viu uma mão agarrada na borda, ele tirou o facão e cortou. Era a mão do caboclo d´água, ela era preta com umas coisas assim no dedo que nem pato. Ele guardou isso até as vésperas de sua morte. Essa mão preta ficou aí até um dia desses, quando um amigo meu pediu emprestado e depois sumiu, não devolveu mais... A carranca é pra isso, o caboclo d´água vê aquela cara mais feia que ele e vai embora”.

Ao ouvir os causos e estórias de seu Chico, chegamos a uma constatação melancólica e irreversível: seres humanos como o artista das carrancas tornam-se, a cada dia, raros espécimes em extinção. O Parque Nacional da Serra da Canastra seria a última cidadela do Brasil central a preservar criaturas maravilhosas em comunhão com o ambiente preservado e protegido. Promessa de existência no futuro e em condições de simbolizar a eterna luta do homem para preservar a sua cultura, a fauna, a flora e as tradições imateriais que permitem a existência, inclusive, do caboclo d’água.

Carranqueiro bom de prosa
Carranqueiro bom de prosa
Carranqueiro bom de prosa